Sensações

Meus olhos estão fechados. Minha cabeça dói como não doía há muito tempo. Estou em um nível de estresse que não sei explicar. Tudo o que consigo fazer no momento é fechar meus olhos e conter os soluços e as lágrimas que insistem em querer me expor para a multidão de pessoas sentadas nesse vagão de trem. O ambiente está quente, o aquecedor está ligado. Alguém cheira mal, provavelmente depois de um longo dia de trabalho.
Encosto minha cabeça no encosto da cadeira, pego meu fone de ouvido, coloco uma música alta. Tão alta que me impeça de ouvir ouvir o burburinho de conversa dos estudantes que estão sentados ao fundo do vagão e que me impeça de ouvir o barulho do trem andando sobre os trilhos. Ainda faltam quatro estações, isso deve demorar umas três músicas. Continuo de olhos fechados, agora só sentindo os cheiros. Desisto da ideia, o pobre moço mal-cheiroso não me permitiu essa experiência.
Resolvo então respirar pela boca, e abrir os olhos e observar as pessoas, sem ouvir o que se passa.
Na minha frente tem um senhor, cabelos grisalhos, pele enrugada e gasta pelo tempo. Ele está dormindo. O movimento do trem parece que o nina, e ele está em um sono pesado. A moça do lado dele já parece estar muito estressada, tem uma expressão dura e parece não ter gostado nem um pouco por eu ter olhado para a cara dela. Eu, estressada como estou, sinto vontade de dizer que se está achando ruim que olharam para a cara dela, ande de máscara ou burca. Mas covarde como sou também, dou um sorriso amarelo e viro o rosto. Agora olho o moço que não cheira bem. Ele está cansado, a expressão dele parece vazia. Os olhos dele no entanto gritam "Só queria chegar logo em casa!!!". Sinto dó do pobre homem, deve estar até mais cansado que eu. Desejo força a ele, mentalmente.
De repente, olho para minha direita e vejo uma menininha de aproximadamente dois anos, sorrindo como se fosse a pessoa mais feliz do mundo, com uma folha apontada para mim, me presenteando.
A princípio eu não entendi muito bem, não sou tão chegada com crianças, mas ao mesmo tempo aquele sorriso inocente me cativou. Tirei meu fone bem no meio de "The Way You Look Tonight", os sons de repente voltaram. Alguém gritava com o outro em meio a uma gargalhada, o trem em seu movimento sobre os trilhos gritava, então peguei a folhinha e agradeci. A menininha saiu correndo e voltou para buscar seu brinquedo, um esmalte da mãe, cujas unhas dela também já estavam pintadinhas com a cor rosa bebê. Ela parecia tão feliz, tão sem se importar com nada... não sabia de nada que tinha por vir. Só queria saber de brincar com seu esmalte, virando o vidrinho de um lado ao outro. A mãe fez sinal de "desculpa" para mim e eu apenas sorri de volta, dando a entender que não havia problemas. Virei novamente para a frente.
Nessa hora eu deixei escapar uma lagrima, mas foi só uma. Meus problemas não foram embora, minhas preocupações também não, meu estresse se mantinha lá, mas com certeza eu tinha um pouco mais de esperança de que tudo ia dar certo.
A menininha não me deu apenas uma folhinha, ela me presenteou com uma coisa que ela achava que seria especial para mim. Ela não entendia nada, mas a inocência dela, naquele momento, me mostrou que alegria está nas pequenas coisas, no simples.
Eu não preciso de muita coisa para viver e para ser feliz. Eu preciso apenas de vida. E eu tenho.

Esse dia ruim de trabalho, aquela briga com o namorado, o serviço que não era seu mas você teve que fazer para não levar bronca, o carro que estava no conserto... aquilo era o de menos. Eu tinha uma casa linda, uma cachorrinha que me amava, um namorado maravilhoso e que apesar de nossos desentendimentos nós sempre nos resolvíamos e aprendíamos muito um com o outro, tinha saúde, tinha um carrinho que de vez em quando precisava de uma manutenção, mas era meu, tinha amigos e uma boa vida.

Coloquei meu fone de volta. Já estava em uma música mais animada "Shape of you". Já estava chegando em minha estação. Fiquei de pés, dei uma última olhada para cada um dos seres que observei... Cada um tem uma vida. Eles provavelmente olham para mim e pensam o que estou pensando, com exceção do senhorzinho dorminhoco que dormia tão pesado que já devia até ter passado a estação dele. Cada pessoa tem um universo na mente. Eu não sou o centro do mundo, sou apenas mais uma no meio de uma multidão. Eu sou o centro do meu mundo, mas cada pessoa tem seu centro. Ser feliz, é o que mais importa.

2 comentários:

  1. Meeeeeeeu irmaaaaaaaaao! Kkkk que texto maravioso! Mano do céu.. esse texto é tão vivo que eu poderia dizer que estava naquele trem. Parabéns! "Clap clap"

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