Aurora | Conto

Hoje será um conto para vocês. Espero que gostem e qualquer sugestão ou comentário, deixa nos comentários! 😀
_________________________________________________________________________________

     Aurora era uma moça muito especial. Ela gostava de cantar e de ler. Lia livros de todos os tipos, mas principalmente os romances.
Isso não quer dizer que ela era uma inocente moça sensível, daquelas que precisam ser resgatas, mas que ela gostava do gênero romance. Apenas. Afinal de contas ela sempre saia para passear pela cidade, sozinha, fazia as compras de casa (que os pais pediam) e já tinha se livrado de assaltos duas vezes. Quando vinham ela reagia, mesmo correndo perigos e sabendo que não deveria reagir, mas ela por instinto se defendia e findou se livrando. Os dois bandidos saíram machucados e ela, com o vestido meio rasgado e uns poucos arranhões.
Ela nunca havia namorado, apesar de já estar na caixa dos 20. "E quem determina a idade de namorar? Não sou eu mesma, a pessoa que irá?" ela sempre se perguntava e lançava quando a questionavam.
     Algumas pessoas da cidade suspeitavam de sua adoção. Os pais eram bem mais velhos e ela não se parecia em nada com eles, a não ser pelo jeito de falar e a coragem incessante de trabalhar. Ela trabalhou por dois anos em uma venda de frutas e agora estava em uma pequena biblioteca pouco frequentada, mas exigida pelo ministério da educação local e o lugar preferido dela no mundo, depois do esconderijo que ela havia encontrado, claro. Quase todo mundo da cidade tinha ficha, todos ficaram empolgados quando a biblioteca chegou, mas quem que continuou indo lá a não ser alguns alunos, algumas pessoas que de fato gostavam de ler e a senhora Carmélia?
A senhora Carmélia era uma idosa que ia sempre lá. Aposentada e com um ar misterioso ela provavelmente já tinha lido todos os contos e mistérios daquela biblioteca diversas vezes. Aurora tinha muita curiosidade a respeito de dona Carmélia, mas era educada demais para chegar e fazer mil perguntas à uma pessoa que não gosta de falar.
     A medida que seu aniversário ia chegando ela sempre se questionava a respeito da vida, de onde ela veio e para onde vai, de como queria ir embora daquela cidade e conhecer outras partes do mundo. De como queria ter uma formação específica para ser especialista e reconhecida em alguma área que ela gostasse... então ela resolveu sentar com os pais e conversar um pouco, olhar umas fotos e planejar o que eles fariam em família no aniversário dela.
Aurora não gostava de festas surpresas, então além de reforçar isso aos pais ela sempre se encarregava de garantir nenhuma surpresa. Ela gostava mesmo de estar em casa, aquecida e confortável ajudando aos pais no que podia e descansando do dia cansativo de trabalho.
     A maioria das pessoas não iam à biblioteca mas Aurora estava sempre organizando os livros que os alunos tiravam do lugar quando iam estudar, reorganizando a biblioteca, adquirindo novos livros com a pequena verba que o governo liberava entre outros serviços. De tanto carregar livros de um lado para o outro, subir e descer escadas Aurora tinha até perdido uns quilinhos.
No meio dessa conversa com os pais Aurora lembrou-se de que sempre alguém a perguntava se ela não tinha vontade de conhecer os pais biológicos e ela sempre dizia "esses são meus pais biológicos, eles só me tiveram mais velhos" e as pessoas faziam cara de confusão, mas ninguém nunca falou mais que isso, e ela resolveu casual e inocentemente perguntar
     - Mãe, por que as pessoas sempre perguntam se sou adotada? - e a mãe de Aurora automaticamente e por impulso levantou-se e sentou novamente, como quem iria fazer algo e desistiu e por fim desconversou
     - Você sabe, Aurora. Tivemos você quando éramos velhos já, minha gravidez foi de risco e por isso as pessoas sempre se admiram por você ser nossa filha, não é? - disse ela olhando para o marido com olhar de súplica por socorro
     - Deve ser - ele respondeu com olhar desconfiado mas claramente sem querer continuar com o assunto. Aurora nunca havia ficado tão intrigada com o assunto como nesse momento. Ela definitivamente faria mais perguntas e descobriria mais. Ela conhecia muito os pais e sabia que eles haviam ficado muito nervosos com aquelas simples perguntas.
     - O que vocês estão escondendo de mim? - ela perguntou calmamente porém com a firmeza de quem queria saber e não iria desistir - podem falar. Sou adulta e acredito que madura o suficiente para escutar o que quer que seja que tenham a me falar.
    - O que a Carmélia falou para você? - a mãe perguntou demonstrando nervosismo misturado com raiva, o que deixou Aurora muito confusa
     - O que? A senhora Carmélia? O que ela tem a ver com isso? Ela não fala mais do que "bom dia" e "boa noite" quando chega e sai da biblioteca. Vamos mãe, por favor, conte-me logo. - Aurora mais uma vez falou firmemente, mas ajoelhada de frente a mãe e segurando suas mãos. - Fale também, pai. Agora definitivamente eu sei que escondem algo. A pergunta era só para puxar assunto, mas agora eu sei que tem algo e acredito que seja sobre vocês serem meus pais ou não.
     - Não queremos te magoar ou que você fique brava conosco por nunca termos te falado nada - o pai soltou, não como uma pessoa aliviada, mas como uma súplica para encerrar a conversa
     - Mas eu já sei que tem algo papai, podem falar. Eu juro que não ficarei brava. Eu nunca ficaria brava com vocês. - ela falou com toda a certeza mas com muito medo. O que eles teriam escondido a respeito da família que ela poderia ficar com raiva deles?
     - Como você talvez imagine, você realmente não é nossa filha de sangue. Criamos você desde seus 6 meses de vida. Você não nasceu aqui nessa cidade. Carmélia nos contou que seus pais não te quiseram e... - Aurora interrompeu
     - Como assim Carmélia me trouxe? Me trouxe de onde?? - agora ela realmente estava assustada
     - Do país que você nasceu, filha. Mas você sabe que a gente é sua real família que te criou e que cuida de você. Você sabe que esse é seu país agora, você foi registrada aqui e... - interrompida novamente
     - De onde eu sou? Eu sei de tudo isso, mas não me faz não querer saber a verdade...
     - Você vem da Inglandia, um reino bem distante daqui. A Carmélia trouxe você, disse que os pais não te quiseram e nós tínhamos acabado de perder um bebê por eu ser muito velha para ter filhos e aceitamos ficar com você... eu não sei como Carmélia te trouxe para cá ou se a história dela é verdadeira... eu só sei que queria uma filha e agora eu tinha - olhou para o marido que estava calado, apenas com lágrimas descendo pelo rosto e que por fim falou
     - Eu sabia que esse dia iria chegar, Rosa. - enquanto passava a mão pelo rosto e olhava pela janela. Aurora estava perplexa demais para falar alguma coisa. Sentia um misto de compaixão pelos pais por guardarem esse segredo por tanto tempo, de tristeza por ter sido rejeitada pelos pais sem nem ter tido a oportunidade de mostrar que valia a pena e de curiosidade pra saber se tudo que a tal Carmélia que ela via tanto e conhecia tão pouco era verdade.
Ela então abraçou a mãe, chamou o pai que veio e juntos se abraçaram... aquela história toda estava parecendo mais um filme. Será que a tal Carmélia era a mãe dela? Ou será que ela era uma bruxa que roubou ela dos pais dela? Ou será que ela estava fantasiando tudo aquilo pra tentar esconder que ela havia sido rejeitada?

Continua...



0 comentários:

Deixe seu comentário

Deixe aqui seu comentário! o/

P.S.:¹ Leia o post antes de comentar :D
P.S.:² Seja sempre respeitoso e educado, ou seu comentário será removido. :B