A depressão da Lua #2

Drica chegou no restaurante e correu para o banheiro. Ela já sabia onde era. Lua também sabia, mas quis perguntar para disfarçar. Ela era ótima em disfarçar o que sentia. Já fazia um mês que Lua não ia mais ali. Os pedreiros que estava reformando o local para transformá-lo em um restaurante já a conheciam e davam a ela toda a privacidade depois que Drica explicou para eles a situação e o que aconteceu. Desde que seus pais dela faleceram, Lua ficou sozinha, ela tinha 15 anos. Teve que encontrar um emprego e dividir sua vida entre trabalho, estudos e lazer. Uma coisa completamente normal. Se ela não tivesse ficado em depressão.
Quem olhasse não diria que ela tinha, afinal ela ia para a faculdade todos os dias, assistia as aulas e não tinha uma falta. Suas notas eram excelentes (com exceção de psicologia, porque ela ficava com raiva da professora). Ela ia para o trabalho e todos os dias, pontualmente estava lá. Nunca se atrasava, era extremamente responsável e tinha uma inteligencia que fazia seu chefe temer a possibilidade de ela ser demitida. Mesmo com a timidez, quase todas as ideias e as coisas que mais faziam sucesso na empresa (que é uma editora de revista, por falar nisso) vinham dela.
A casa foi vendida pouco depois da morte dos pais, para Lua poder se sustentar e pagar um aluguel. O dinheiro estava na poupança intocado, desde que ela encontrou o estágio na editora. O salário dela era suficiente para pagar o aluguel, a alimentação e as saídas dela.
Drica realmente não sabia o que que poderia ter ocasionado esse ataque de Lua.
Bateu na porta, chamou com calma "querida? você está aí? é a Drica. Vem aqui fora, vamos comer algo..." e Lua só respondeu "me dá um tempo, já saio" e Drica foi para a fila, esperar para fazer o pedido, enquanto Lua saia.
Lua por sua vez estava agora sentada no chão, com sua parede de tijolos por trás, silenciosamente deixando as lágrimas descerem por seu rosto. Um choro sereno, controlado e sufocante.
Lua vinha lutando contra a depressão. Ela não se acomodava. Ela ia à livraria todos os dias, ia ao cinema quase toda semana (se tivesse filme legal) e na faculdade ela sempre passava um bom tempo na biblioteca, estudando e aprendendo, se tivesse uma peça de teatro ou um jogo de um time legal para ir, ela ia. Mas durante a semana, entre seus afazeres, ela sempre se punha pensativa e com isso, tudo a levava para aquele lugar, que agora é um banheiro. Ela estava tão melhor, até se interessou pelo Stênio, moço da livraria. Drica realmente não estava entendendo.

Lua levantou, lavou o rosto na piazinha, ficou contemplando sua imagem por um tempo e então enxugou o rosto. Passou um pó - coisa que só fazia durante o dia se chorasse - e resolveu sair do banheiro. Drica estava no caixa e ela foi até lá, e fez o pedido junto... Uma salada francesa com bastante molho e um croissant de chocolate. Uma jarra de suco de laranja para elas duas. Pagaram e foram caçar uma mesa vazia para sentar, onde encontraram em um canto reservado e assim que sentaram Drica olhou para o rosto opaco de Lua, por causa do pó, e lançou um olhar solitário que claramente já era uma pergunta sobre o que havia ocorrido. Sem pensar duas vezes, Lua falou "Stênio está mudando para outro país... e vai com uma tal de Marissa... acho que ela deve ser namorada" e deu um sorriso forçado, enquanto pegava o telefone e ficava passando as imagens do instagram e enquanto Drica pensava no que dizer...
"Não precisa dizer nada querida. Uma das únicas coisas que estavam me deixando um pouco mais animada ultimamente era pura imaginação. Ele nunca se interessou por mim." Drica sabia que aquele não era o momento apropriado, mas precisou de dizer porque alguém precisava de falar "Mas você deixou ele notar que você estava interessada, Lua?" e ela respondeu sorrindo "E se ele não estivesse, como está provado agora? Eu iria ser rejeitada! Eu já passei por muito, amiga... não quero mais essa de ser rejeitada".
Elas comeram, conversaram sobre outras coisas na tentativa de esquecer e de vez em quando uma lágrima perdida escorria a bochecha de Lua, mas ela secava como se fosse suor e segurava toda aquela dor que estava tentando escapar mais forte ainda.
Para as pessoas pode parecer besteira, mas a Lua... tem depressão.
Elas saíram de lá e Drica resolveu passar na livraria e pegar o contato desse tal de Stênio...

0 comentários:

Deixe seu comentário

Deixe aqui seu comentário! o/

P.S.:¹ Leia o post antes de comentar :D
P.S.:² Seja sempre respeitoso e educado, ou seu comentário será removido. :B